quinta-feira, 29 de março de 2012

O uso da letra de forma X letra cursiva na alfabetização – uma dualidade questionável !



Antes de iniciarmos nossa discussão acerca do assunto em pauta, relembremos das ideias propostas por Jean Piaget, as quais se baseiam no método da investigação, ou seja, o aluno é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas. Possivelmente, tais elucidações tendem a conduzir-nos ao ponto central de nossa discussão: entre a letra cursiva e a de forma... qual delas tem maior eficácia no processo de alfabetização? 

Nesse processo de interação com a realidade a qual se encontra inserido, o aluno tende a se identificar profundamente com aquilo que presencia. Dessa forma, em se tratando da letra de forma, há que se constatar sua recorrência nas mais diversas circunstâncias que norteiam o cotidiano, como por exemplo: nas teclas do computador, nos outdoors, nos livros, na televisão, jornais, rótulos, embalagens, nas placas de trânsito, entre outras. Assim sendo, o emprego da letra cursiva se restringe somente ao ambiente escolar. Mediante tal ocorrência, eis que surge uma indagação de caráter relevante: essa familiaridade com a letra de forma não facilita uma melhor apreensão do conhecimento?

Procurando dar uma maior ênfase ao nosso propósito, torna-se interessante elencarmos algumas características inerentes ao emprego de ambas as letras, uma vez manifestadas por pontos que divergem entre si. Assim, vejamo-los:


Letra de forma (também conhecida como bastão)  Letra cursiva
Disseminada nas escolas construtivistas  Escola tradicional
Torna-se menos dispendiosa, pois exige um esforço menor do aluno. Assim, ele domina melhor os movimentos da escrita.  Ao ter que desenhá-la, o aluno tende a encontrar mais dificuldades em dominar tais movimentos. 
Em virtude da convivência com tal modalidade, a criança não sente dificuldades em reconhecer o alfabeto.  Como o contrário ocorre, sendo sua recorrência  restrita somente ao espaço escolar, o reconhecimento não se dá de forma espontânea.


Mesmo em face desses pressupostos, somados ao fato de que o uso dos famosos cadernos de caligrafia está cada vez menos integrando as práticas educativas, vale dizer que ainda não há um consenso entre educadores, pais e especialistas, tampouco uma literatura que reforce essa questão. O que se pode constatar são as divergências existentes entre eles, assim como nos revelam as palavras de Magda Soares, professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG:

"No momento em que a criança está descobrindo as letras e suas correspondências com fonemas, é importante que cada letra mantenha sua individualidade, o que não acontece com a escrita ‘emendada’ que é a cursiva; daí o uso exclusivo da letra de imprensa, cujos traços são mais fáceis para a criança grafar, na fase em que ainda está desenvolvendo suas habilidades motoras".

Bem como o discurso proferido por Elvira de Souza Lima, a qual demonstra não estar tão empenhada na discussão, mas mesmo assim revela: "Os processos de desenvolvimento na infância criam a possibilidade da escrita cursiva".

E acrescenta Magda Soares, a qual atribui o empego da letra cursiva à ansiedade demonstrada pelas crianças em começar a escrever – fato que as conduz a fazer uso de tal modalidade. E revela:

"Penso que isso se deve ao fato de que veem os adultos escrevendo com letra cursiva, nos usos quotidianos, e não com letras de imprensa".

Nesse sentido, manifestadas todas as divergentes opiniões, cabe ainda ressaltar que mesmo que o processo de alfabetização venha recebendo cada vez mais o apoio da neurociência, estudos ainda são insuficientes no intuito de se declarar o desuso definitivo da letra cursiva ou sua efetiva ascensão. Enquanto alguns neurocientistas declaram-se adeptos dessa modalidade, em virtude de exigir maior esforço de integração entre as áreas simbólicas e motoras do cérebro, auxiliando a criança a adquirir fluência, há uma outra corrente de pesquisadores, os quais afirmam que se a cursiva desaparecer, as habilidades cognitivas serão substituídas por novas, sem nenhum fator consequente.

Portanto, não nos resta outra alternativa senão assistirmos à evolução dos fatos, e aguardarmos os possíveis resultados, que porventura ocorrerão.

 Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

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